A Gaveta Que Não Fecha - versão para recital

No poema 'A gaveta que não fecha', Flavio di Fiorentina utiliza o surrealismo para explorar as memórias, remorsos e silêncios que guardamos no íntimo do nosso ser.

RECITAL

Flavio di Fiorentina

6/13/20263 min read

Poema

A Gaveta que não fecha - versão para recital

Epígrafe:
"Muitas coisas podem sair da gaveta."
- Flavio di Fiorentina

Tempo de Leitura: 2 min e meio

🌞“A Gaveta que Não Fecha” é um poema sobre memória, intimidade e os objetos que insistem em carregar aquilo que tentamos esquecer. No quarto do eu lírico — esse território pequeno, cercado de paredes vizinhas — tudo funciona, exceto uma gaveta antiga que se recusa a fechar, como se guardasse um passado que ainda respira.

Entre humor, dor e realismo mágico, a gaveta ganha voz, chora, confessa e revela o peso de anos servindo de depósito para lembranças, remorsos e segredos. O poema transforma um detalhe doméstico em metáfora poderosa sobre identidade, silêncio e aquilo que permanece engasgado dentro de nós.

É um texto que convida o leitor a refletir sobre o que guardamos, o que não conseguimos fechar e o que, mesmo depois de resolvido, continua abrindo frestas dentro do nosso próprio eu.

Esta é a Versão para Recital do poema "A gaveta que não fecha", de Flavio di Fiorentina. O roteiro abaixo foi diagramado especialmente para performances de palco, saraus e leitura dramática. Use as indicações laterais de tom e pausas para conduzir o público através deste desabafo silencioso da memória.

A seguir, o poema completo “A gaveta que não fecha - versão para Recital”

Poema sobre lembranças da infância, memória, terra natal

A Gaveta que não fecha

- versão para Recital

O Roteiro de Leitura Dramática

🛏️ [Tom confidencial e suave, abrindo a intimidade do ambiente]

Meu quarto, meu mundo,

uma intimidade

cercada de paredes vizinhas,

um pedaço do meu eu, [Pausa]

um pedaço

da minha vida.

Onde quase tudo funciona:

a porta do quarto,

a cama de solteiro,

a luz do quarto,

o guarda-roupa, [Pausa]

[Voz muda para um tom intrigado/incomodado]

exceto uma gaveta

de madeira antiga, [Pausa]

que nunca fecha.

🤕 [Voz mais densa, expressando o incômodo psicológico]

No meu quarto,

essa gaveta antiga

traz transtorno,

traz desgosto,

traz uma ferida.

E traz também

uma música de lamentação: [Pausa]

um ranger marrento,

ao se fechar,

ao se abrir.

🔨 [Ritmo acelera ligeiramente, denotando esforço e frustração]

Mesmo assim,

eu forçava:

com raiva,

com o martelo,

com a lixa.

Forçava

com a paciência de um tolo. [Pausa Longa]

🌙 [Voz mansa, ritmada pelos ciclos do tempo]

Mas a gaveta de madeira / não fechava.

Não queria intimidade.

E, mesmo assim,

continuava engasgada / no fechamento: [Pausa]

não fechava na lua nova,

não fechava na lua cheia,

não fechava / em nenhuma lua.

Chamei o carpinteiro.

Chamei o marceneiro.

Chamei o projetista. [Pausa]

Ninguém conseguia fechar / a gaveta de madeira.

[Voz sussurrada, misteriosa. O realismo fantástico se impõe]

Desta vez, ao fechá-la / em nova tentativa,

a gaveta abriu a boca

e chorou / timidamente.

Chamou-me [Pausa] e disse:

Por Flavio di Fiorentina | 13 de Junho de 2026

💬 [Voz confidencial, personificando o desabafo da gaveta]

— sempre gostei

de ficar com um dedo aberta,

para respirar, [Pausa]

porque remoía o passado,

que insistia / em não dormir.

Tantos anos / com aquele remorso.

Tantos anos / servindo de depósito.

💨 [A voz ganha vazão e alívio, desacelerando até a calmaria]

Com tanto desabafo,

foi saindo dela:

sons, lembranças,

vozes,

cheiros, [Pausa]

coisas que não cabem / em fotografia,

até que [Pausa]

eu consegui, finalmente,

fechá-la. [Pausa Longa]

🤐 [Olhar fixo no público, voz cortante, profunda e final]

Mas agora, quem não queria / abrir a boca...

era o meu eu.

(Silêncio absoluto por 3 segundos antes de encerrar)

Brasília (DF), 13 de junho de 2026.

Texto de Flavio di Fiorentina

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  • 🎙️ [Versão Comum]: Estrutura cênica com marcações de pausas para declamação.

  • 📚 [Versão Musical]: O texto literário original em sua densidade poética.

  • 🎸 [Versão para Compassos]: Adaptação rítmica e esqueleto melódico para compositores.

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Quem é Flavio di Fiorentina

Flávio di Fiorentina é poeta e escritor baiano radicado em Brasília, autor do livro Amor nos tempos de lua minguante. Suas obras transitam pelas esquinas do eu, pela memória e pelo realismo fantástico.

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