O ARQUIVO DO BEM VIVER

O bem viver
é diamante que se constrói aos poucos,
no dia a dia,
que, por causa do sol e das sombras,
vai se esquecendo
nos olhos de trás.

O bem viver
é várias fotografias,
cliques
que não cabem
no esquecido álbum da família.

O que seria a solução:
vastidão de cliques
que enchem
a memória do celular.

Cliques e fotografias
que custam caro
na nuvem
e parecem não caber
nem na própria nuvem.

E mesmo que vá
para a memória que não se apaga,
a preguiça, o tempo,
vai desprezando as duas gavetas:
a memória pequena
e a memória grande.

Pois a memória
custa caro para a memória
e para os cliques.

Os cliques do bem viver
estão se evaporando,
se diluindo
nas curvas do perder.

Eu não estou sabendo
onde guardar o bem viver.
Faltam gavetas, prateleiras.
Como se fossem suficientes,
e não são.

O baú dos achados e perdidos
do bem viver
vai perdendo as memórias,
as fotografias,

até se desconfiar
se realmente
foi aquilo
que aconteceu.

O bem viver
abre novas cortinas,
que vão se abrindo,
porém esquecendo os detalhes.

Como o chafariz da praça,
a vida está nos detalhes
que se perdem
como água na mão.

De tudo,
o bem viver se resume
à data de nascimento,
aos aniversários
e aos ritos de passagem.

Mas a data do fim
também derrama
da mão —
mas essa não é do querer.

E o mal viver,
nesse,
a fotografia está na pele:
a principal memória.

Brasília (DF), 29 de março de 2026.
Texto de Flavio de Fiorentina

Tags: efemeridade, memória digital, passagens do tempo, fotografia e esquecimento, reflexão contemporânea, literatura brasileira.

Epígrafe:
“Guardar é um gesto que a mão não sustenta.”

Poesia sobre o Tempo e a Existência | Tempo de Leitura: 2 min