O Espelho sem Sombra
Flavio di Fiorentina

Este poema explora como o espelho — real ou simbólico — revela camadas profundas da identidade humana.
Ir ao espelho é uma atividade muito comum para muitas pessoas. Pode não ser para você se estiver em dias difíceis, mas o reflexo sempre nos confronta. Você já foi ao espelho hoje? O que você viu? Há espelhos que revelam as marcas do tempo, há espelhos que escondem nossas dores mais profundas. E há o espelho deste poema — um espelho sem sombra, onde a presença e a ausência se confundem no cotidiano.
Em “O Espelho sem Sombra”, Flavio di Fiorentina conduz o leitor por uma travessia íntima, marcada por silêncio, ruptura e descoberta. A obra transita pelo Realismo Fantástico para explorar como a nossa identidade é moldada pelas memórias e pelo eco dos nossos antepassados. É um convite para olhar além da superfície do vidro e encarar o que realmente somos quando ninguém está olhando.
Nesta rua em que eu vivo,
do espelho saiu uma sombra
que entrou em meu descanso
em uma madrugada sem lua.
Uma sombra de gente entrou em meu descanso
para dizer que, além do meu eu, ela existe.
O espelho quem diz se o parto foi de dia,
se a gestação não for de noite.
Porém o espelho é uma sombra
que muda de roupa e de suéter.
Mas vou atrás da minha mãe no outro lado da terra,
onde ninguém caminha,
ninguém anda,
nem tem espelho.
Ela vai dizer se nasci no parto do dia
ou no parto da noite.
Entretanto,
entre minha mãe e eu há um espelho
que não tem sombra.
Só tristeza
e uma agonia que não se atravessa.
O Espelho sem Sombra: Poesia sobre ancestralidade
Tempo de Leitura: 2 min e meio de leitura.
Epígrafe:
O silêncio chega e às vezes surpreende.
– Flavio di Fiorentina


A lua foi chegando como lua cheia,
mas o brilho foi escurecendo
o quintal e o dia.
O cotidiano andando,
o cotidiano correndo,
e a sombra vindo com sua agonia.
A assombração da agonia
de que a luz pode sumir
antes mesmo de nascer o dia.
Se você não se conhece,
se você não se confia,
vai depender do parto,
talvez depender da agonia.
Se você não se conhece,
nem em você confia,
é porque você nasceu no parto da noite,
se não nasceu no parto do dia.
O espelho quem diz se o parto foi de dia,
se a gestação não for de noite.
Por isso eu vim morar nesta rua
para entender o parto dos dias.
Poema sobre ancestralidade, identidade e realismo fantástico
A seguir, o poema completo “O Espelho sem Sombra”.
Brasília (DF), 31 de maio de 2026.
Texto de Flavio di Fiorentina
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Quem é Flavio di Fiorentina
Flávio di Fiorentina é poeta e escritor baiano radicado em Brasília, autor do livro Amor nos tempos de lua minguante. Suas obras transitam pelas esquinas do eu, pela memória e pelo realismo fantástico.
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