Quando a neve não foi embora
Flavio di Fiorentina

Quando a neve não foi embora,
uma asa feita de papel de escritório
saiu do meu eu
para se esconder na gaveta do mobiliário,
onde, ao longo dos anos, se perdeu
no tropeço contra os clipes,
se enroscou nos grampos,
nem se habituou ao cheiro das tintas dos papéis,
sem uso, sem valia.
Até que se esforçou com as novas companhias:
um recibo, uma caneta seca, um bilhete esquecido.
De onde tinha saído,
havia o movimento das pernas, da boca, dos braços.
Os sons que saíam da boca,
até das regiões mais distantes,
de onde ouvia os gases.
Ao longo dos anos, quanta saudade da antiga casa:
do hálito da boca,
do perfume,
do aconchego de anos perdidos,
sem que pudesse encontrar o caminho de volta.
Mas um leve terremoto abriu a gaveta,
que recebeu luz e irradiou sobre a asa de papel.
Energia que faltava para alçar voo,
de volta para o caminho
que já não existia,
que não encontrava,
pois se perdeu.
Ao longo dos anos, a asa de papel foi se amarelando,
até que alguém viu a gaveta e achou uma folha amarela.
As mãos do próprio eu
de onde tinha saído.
Brasília (DF), 22 de maio de 2026.
Texto de Flavio di Fiorentina
Nota de autor
Escrevi este poema pensando nas partes de nós que se perdem devagar — numa gaveta, num inverno que não termina, num silêncio que se prolonga sem pedir licença. Às vezes, até uma asa de papel tenta fugir do próprio corpo. Quando volta, já não é mais asa: é lembrança amarelada do que fomos um dia.
Tags: poesia contemporânea, memória, tempo, asa de papel, redescoberta, identidade, literatura brasileira, flavio di fiorentina.



