
Rito de sobrevivência emocional
Um poema existencial sobre identidade, autodomínio e os muros interiores que atravessam os encontros humanos.
SILÊNCIOS
Flavio di Fiorentina
5/15/20261 min read

Neste poema, um convite para atravessar a noite interior
Há poemas que não se leem: se atravessam. Rito de sobrevivência emocional é um desses textos — um caminho que começa no corpo, passa pelas sombras que ninguém vê e termina naquele ponto secreto onde a lua escurece por dentro.
Este poema é um convite para entrar devagar, como quem pisa numa rua molhada depois da chuva. Aqui, cada gesto — chutar, segurar, respirar, silenciar — ganha outra espessura. E a lua, essa lua que não está no céu, mas atrás dos olhos, acompanha tudo.
Se você chegou até aqui, deixe o dia do lado de fora. O rito começa quando o corpo reconhece a própria noite.



Epígrafe:
“O corpo sabe quando a lua escurece.”
— Flavio di Fiorentina
Rito de sobrevivência emocional
só se valida
se passar pela lua escura,
mas cuidado com o tipo de rua.
Porque a sobrevivência do ser fica
atrás dos olhos,
atrás do coração.
Quando a lua for escura,
pare de chutar
a árvore,
a parede.
Pare de jogar as panelas,
os talheres,
as louças,
na pia.
Pare de xingar
o eu dos outros.
Não se chute,
não se zangue.
A lua escura vai chegando
como uma dorzinha ali,
uma dorzinha acolá.
E já vira uma febre
nas esquinas do eu.
Quem não sabe viver sem você
é o seu eu.
O meu, esse sim,
está aprendendo a pegar
a lua escura
e uma hora vai conseguir pegar,
antes que chegue o novo dia.
Pois a lua escura se alimenta
do eu dos outros,
do eu de si mesmo;
até dos animais se alimenta,
se a mordida não for crua.
Mas não é preciso
parar de chutar,
parar de gritar,
porque a lua escura
se esconde ou reaparece
como peixe no mar.
E quando a lua escura sumir,
não procure.
Ela volta
quando o corpo chamar.
Brasília (DF), 17 de maio de 2026.
Texto de Flavio di Fiorentina