Um Corpo que pressente

No outono calmo,
há poesia —
mesmo que seja
para ouvir a agonia.

Prestes para dormir,
a Suindara
bateu asa na janela.

Não vou mais dormir.

Treme o corpo,
bate forte
o coração.

“Você vai ter dor de parto.
Se prepare.
Tudo vai vir.”

Suindara que encanta
e que vem com espanto.

“Você vai ter dor de parto.
Se prepare.
Tudo vai vir.”

O corpo em calafrios
até se derreter
no dormir.



Mas não sei a língua dos animais.
A língua dos homens não entende
a língua do corpo,
do calafrio,
do tremor
que não tem base,
que não tem fim.

Assim como um carteiro,
a Suindara foi embora.
As vigílias da noite passaram.

Levantei-me da cama.
Fui trabalhar.

De repente,
a pancada no meio da testa.

Onde estava esse ferro velho
pendurado
para fora da pick-up?

E o corpo já sabia.



Brasília (DF), 11 de maio de 2026
Texto de Flavio di Fiorentina


Publicado em: 19/05/2026 | Leitura: 2 min | Categoria: Poesia Existencial Palavras-chave: pressentimento, corpo, medo, linguagem simbólica.

Epígrafe:
“O corpo fala antes.”

  • POESIA • 19 DE MAIO, 2026 • 2 MIN DE LEITURA