poema um ziper na boca
Um poema sobre silêncio imposto, amor interrompido e um zíper que fala quando a boca não pode. Intimidade, humor triste e realismo mágico.
SILÊNCIOS
Flavio di Fiorentina
6/11/20263 min read

Poema
Um zíper fechou a minha boca
Um zíper fechou minha boca
após andar
no muito caminhar.
Pois, de tanto andar,
de tanto reagir,
na vivacidade da juventude,
o meu eu aceitou um caminho -
o caminho de um zíper.
Por onde peregrinei,
lamentei
e chorei
as águas salobras,
em cujo lago,
sem querer,
quase me afoguei.
De onde, ao tentar fugir,
o zíper trancou o caminho,
trancou também o meu eu.
Fechou a minha boca,
sem a delicadeza do meu amor,
mas na força do carcereiro.
Andando pelas ruas,
pelas praças,
pelas terras de Brasília,
o zíper zipou a língua -
a língua do meu eu.
Veio do nada.
Sem aviso,
no trocar de roupas
dos anos.
E fechou a minha boca.
Mas não me deixou surdo.
Por causa do zíper nos lábios,
não consigo abrir a boca,
não consigo falar,
não consigo dizer o descontentamento,
não consigo dizer
que te amo.
E o que mais quero
é dizer que te amo,
que você é linda,
que você é tudo de bom.
Nos dias
em que fui dizer te amo,
veio o zíper
e me deu uma rasteira —
daquelas de tribunal
sem ampla defesa,
que ignora o contraditório.
Epígrafe:
"O caminho de um zíper começa na boca."
- Flavio di Fiorentina
Tempo de Leitura: 2 min e meio
Um zíper já fechou a sua boca? Neste poema de Flavio di Fiorentina, um zíper sela a boca do eu lírico no exato momento em que ele tenta declarar seu amor.
Entre humor, dor e realismo mágico, o silêncio ganha voz — e o zíper fala por ele.
A seguir, o poema completo “Um zíper fechou a minha boca.”
Ao longo dos dias,
comecei a ouvir
a minha voz por dentro,
com cheiro de zumbidos,
chiados
e todo o combo.
O zíper ainda não foi embora.
Porque quem o jogou,
quem o construiu,
foi muita gente —
das terras distantes,
das terras de perto.
Até que,
numa noite quieta,
o zíper começou a se mexer.
Não abriu.
Não afrouxou.
Apenas falou.
Falou com a minha voz.
Falou com a minha falta.
Falou tudo
o que eu não conseguia dizer.
E,
com a minha própria boca fechada,
o zíper disse por mim:
“eu te amo”.
Brasília (DF), 10 de junho de 2026.
Texto de Flavio di Fiorentina
Quando o meu eu aceitou o zíper: um poema sobre silêncio e amor


Um zíper fechou a minha boca
Um zíper fechou a minha boca
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Quem é Flavio di Fiorentina
Flávio di Fiorentina é poeta e escritor baiano radicado em Brasília, autor do livro Amor nos tempos de lua minguante. Suas obras transitam pelas esquinas do eu, pela memória e pelo realismo fantástico.
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